Enquanto as palavras do Corão ressoavam pela sala, lembrei da velha história de baba enfrentando um urso negro lã no Baluquistão. Meu pai passou a vida inteira enfrentando ursos. Perdeu a jovem esposa. Teve de criar um filho sozinho. Precisou abandonar a sua querida terra natal, o seu watan. Conheceu a pobreza. A indignidade. Até que, afinal, apareceu um urso que ele não conseguiu derrotar.
São aqueles que unem pais e filhos, amigos próximos e também os que nos conectam aos nossos companheiros no amor. Portanto estamos nos referindo a aquilo que é mais universal entre os homens e que, como conseqüência disso, sensibiliza qualquer pessoa, independentemente de sua cor, credo, gênero, etnia, time de futebol…
A história de um romance se universaliza quando explora justamente as características que nos tornam mais próximos enquanto seres humanos. Romeu e Julieta, Hamlet, Othelo e as principais obras de William Shakespeare continuam sendo lidas por novas e novas gerações de habitantes desse planeta porque falam com profundidade sobre o amor e o ódio, a raiva e o perdão, a paz e a guerra, a traição e a fidelidade…
Shakespeare se tornou o autor mais conhecido e respeitado da literatura porque seus personagens não se distanciam daquilo que nós somos em nossas vidas. É também nessa vertente que Khaled Hosseini desenvolve sua obra O caçador de pipas. O próprio título nos mobiliza e aproxima da leitura por despertar reminiscências da infância, do alegre bailado das pipas nos céus em uma constante e sadia disputa por espaço e evidência.
Somos os caçadores de pipas não apenas na infância, e é nesse ponto que reside a história dos personagens Amir e Hassan, irmanados por uma história de vida comum nos primeiros anos de suas existências apesar das evidentes diferenças sociais relacionadas a origem familiar de ambos.
Amir é o “primo” rico, Hassan o pobre. O primeiro é o senhor da casa em que vive com o pai, sem a presença da mãe, falecida em seu parto. O segundo também é órfão da presença materna e vive com o pai, serviçal da mais completa confiança de seu patrão, o pai de Amir. As diferenças sociais existentes entre eles existem nas roupas, nas casas, nos brinquedos e, até mesmo, nos alimentos que consomem, mas inexistem na relação de proximidade e amizade.
A sociedade não vislumbra esse encontro e convivência tão especial, permeado pela amizade descompromissada e fiel pelo fato dos meninos serem de etnias diferentes dentro do sistema de castas existente no Afeganistão. No entanto, para os dois garotos, não há preconceito algum, eles vivem o mais singelo e verdadeiro sentimento que move os verdadeiros amigos.
Há, no entanto, segredos familiares que eles desconhecem. Existem também diferentes atitudes dos dois meninos no que se refere à lealdade que reservam um ao outro. São tão fortes essas relações/situações que os elos que os unem numa forte e aparentemente indestrutível relação se despedaçam quando eles têm perto de 10 anos de idade. Se não bastassem as circunstâncias da vida pessoal, a história do país passa por grandes reviravoltas e as lutas políticas internas do Afeganistão os afastam por um longo período de suas vidas. Será que é para sempre?
É nesse ponto que um elemento comum de suas vidas na infância cria pontos de reencontro entre Amir e Hassan. Só que os espinhos e as mazelas do passado se erguem entre eles e só podem ser superados a partir de um reencontro. Mas, como reunir pessoas depois de mais de 20 anos que vivem em realidades diferentes, em países distantes? Hassan amargou os duros anos das guerras de seu país enquanto Amir emigrou para os Estados Unidos…
Emocione-se a cada página, aprenda com cada capítulo uma nova lição, entre num diferente ritmo de leitura, mais reflexivo e passional, muito próprio de uma cultura fascinante que pouco conhecemos e descubra os encantos de O caçador de pipas. Imperdível!
João Luís Almeida Machado Doutorando pela PUC-SP no programa Educação: Currículo: Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie-SP; Professor universitário e Pesquisador atuando no Centro Universitário Senac em Campos do Jordão; Editor do Portal Planeta Educação.
rodrigo
July 3rd, 2007 at 3:40 pm
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